Deves recomendar a tua psicóloga a outra pessoa?

Partilhas com um amigo, familiar, colega de trabalho, o impacto que a psicoterapia tem tido na tua vida. Um dia, essa pessoa diz-te: “Estava a pensar começar a fazer terapia. Podes dar-me o contacto da tua psicóloga?”. 

É uma pergunta compreensível. Se a tua opinião é positiva, essa pessoa pode pensar que será boa ideia marcar consulta com quem te acompanha. 

Será? A resposta não é tão simples como sim ou não. Há várias dimensões que vale a pena ter em consideração – e que vamos explorar neste artigo.

Ter uma psicóloga em comum pode ter consequências inesperadas.

Mesmo sabendo que os psicólogos têm de manter a confidencialidade e privacidade das pessoas que acompanham, questões complexas podem surgir se tu e alguém que te é próximo forem acompanhados pela mesma psicóloga. É uma situação que pode levar-te para lugares de:

  • Competição ou comparação;
  • Inveja, ciúmes ou possessividade;
  • Preocupação em que falem sobre uma situação que te envolve.


O teu nome pode nunca sequer ser dito mas a ideia pode ser suficiente para que a terapia comece a não parecer o espaço seguro que é necessário que seja.

E se a tua psicóloga soubesse sobre ti algo que não lhe contaste?

Se a tua psicóloga te acompanhar a ti e alguém que te é próximo existe uma possibilidade de que venha a ter acesso a informação que não querias que ela soubesse. Devido à confidencialidade, não saberás que tal aconteceu – e informação que não foi providenciada por ti não pode ser usada no teu processo terapêutico. Além disso, em teoria, a psicóloga não pode deixar-se influenciar por essa informação. Digo “em teoria” porque a tua psicóloga é humana e pode ser difícil manter essa compartimentalização, ainda que a influência ser inconsciente. Não ter uma psicóloga em comum pode ser uma forma de preservar a objetividade e proteger a integridade do processo terapêutico.

E se os temas que nos levam a terapia não envolvem a outra pessoa?

Imaginemos: tu iniciaste psicoterapia por questões relacionadas com uma mudança de emprego; a tua amiga está a considerar começar para lidar com questões familiares. À partida, não parece haver motivo para quem falem sobre essa relação ou sobre a outra pessoa. Mas como sabemos isso? Não sabemos. Muitas vezes, aquilo que parece ser isolado toca muitas áreas da vida. Começamos no ponto A e conforme vamos fazendo o caminho já estamos a escrever com um alfabeto diferente. Além disso, não conseguimos prever que no futuro não vai surgir algo que envolve a vossa relação. Não podem existir tópicos proibidos ou hesitações devido a estas relações múltiplas.

Qual a melhor solução? Fala com a tua psicóloga primeiro.

Caso te pareça boa ideia que alguém que conheces seja acompanhado pela tua psicóloga, leva esse assunto para a consulta. Explica a situação e deixa que a psicóloga te ajude a explorar o tema: que dificuldades poderiam surgir, que potenciais conflitos de interesse. Também pode não existir exploração porque a psicóloga pode recusar logo à partida acompanhar essa pessoa.

Mesmo que não vejas qualquer impedimento, em última análise, a decisão final é da psicóloga. O parecer 35/CEOPP/2016 da Ordem dos Psicólogos Portugueses é claro “independentemente de os clientes compreenderem e concordarem com as limitações inerentes à criação de relações múltiplas, a responsabilidade do psicólogo será sempre a mesma, pelo que qualquer problema ocorrido no decurso da intervenção será responsabilidade do psicólogo.

Já recomendei sem falar. E agora?

Sê transparente. Conta o que aconteceu à tua psicóloga e pede à pessoa com quem falaste para fazer o mesmo no seu pedido de consulta. A psicóloga saberá como gerir a situação de forma a proteger todas as partes envolvidas. No meu formulário de contacto, que pode encontrar aqui, essa pergunta já está incluída.

Não é maldade não recomendares a tua psicóloga.

Uma recomendação é um voto de confiança e, na minha opinião, um dos maiores elogios que alguém pode fazer ao trabalho de um psicólogo. Mas isso não se pode sobrepor ao resto. Tu não estás em terapia para elogiar ou agradar a quem te acompanha nesse caminho. A tua psicóloga é parte do teu sistema de suporte e psicoterapia é um espaço onde deve sentir-te em segurança para explorar, expressar, crescer. É um espaço que merece ser protegido.

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