O papel do voluntariado na saúde mental.

Já ouviste falar no termo “prescrição social”? A Organização Mundial de Saúde
define prescrição social como “uma forma de conectar pacientes a uma variedade de serviços não-clínicos na comunidade para melhorar a saúde e bemestar”.

Embora nenhuma prescrição social substitua o acompanhamento psicológico, os benefícios de pertencer a uma comunidade são inúmeros. E, como podes deduzir pelo título deste artigo, uma dessas opções comunitárias é o voluntariado.

Benefícios do voluntariado: quais são?

As ações de voluntariado têm como objetivo ajudar um grupo específico. No entanto, também existem vantagens para as pessoas envolvidas em levar a cabo a ação, uma vez que o voluntariado melhora a qualidade de vida e a saúde física e mental. Vem conhecer alguns dos benefícios já confirmados pela investigação.

Contribui para a melhoria do funcionamento físico e cognitivo.

A maioria das atividades de voluntariado implica movimento, pelo que ajudam na manutenção de mobilidade, flexibilidade, destreza manual, entre outras. Além disso, promovem a atividade cognitiva contribuindo para uma boa saúde cerebral. Os benefícios do funcionamento físico, juntamente com os benefícios para a saúde mental (por exemplo, a redução de níveis de stress, ansiedade e depressão), contribuem para níveis mais baixos de mortalidade quando em comparação com pessoas que não fazem voluntariado.

Promove o encontrar de sentido de vida.

Interrogarmo-nos quanto ao propósito da nossa existência é uma das tarefas que partilhamos enquanto seres humanos. Dadas as caraterísticas altruístas do voluntariado, não é de admirar que possa contribuir para a construção desse significado uma vez que direciona o voluntário para algo além de si mesmo. Isto é particularmente verdade quando o voluntariado é realizado em áreas a que o voluntário atribui importância. Embora a investigação demonstre que a idade é um preditor de motivação altruístas, em Portugal não existe representatividade nas faixas etárias mais avançadas; dados de 2021 indicam que as faixas etárias com mais participação são a dos 15-24 anos e 25-34 anos.

Oferece a possibilidade de adquirir e/ou aplicar competências.

Tal como a quantidade de movimento depende do tipo de voluntariado, também o tipo de competências que adquiridas e/ou aplicadas será variável. No entanto, a quantidade de competências envolvidas é tão vasta que mesmo ao transmitir conhecimento também se adquire. Em atividades de voluntariado estão presentes competências como resolução de problemas, gestão emocional, liderança, comunicação interpessoal, gestão de tempo, criatividade, organização, tomada de decisão, entre inúmeras outras. Além disso, esta oportunidade promove a melhoria de autoestima e o empoderamento.

Previne e reduz sentimentos de solidão.

Qualquer que seja o motivo que leva a pessoa a fazer voluntariado, é partilhado o desejo de contribuir positivamente para uma causa. Assim, o voluntariado permite construir um sistema de suporte com base em interesses e valores comuns, oferecendo oportunidades de interação e conexão social. É um contexto que também permite a conexão com pessoas de diferentes contextos e com competências, que talvez de outro modo não fosse possível conhecer. Além disso, é possível fortalecer relações pré-existentes caso seja partilhado com pessoas já conhecidas. Finalmente, aumenta a sensação de apreço por parte dos outros – o que por sua vez reforça a motivação altruísta.

Será que existem desvantagens no voluntariado?

Desvantagens não existem, mas existem alertas a fazer.

  • O voluntariado não substitui acompanhamento psicológico. Pode dar a resposta a certas necessidades da pessoa (em particular quando relacionadas com os benefícios acima apresentados) e pode ser um óptimo complemento ao processo terapêutico.
  • Cautela no momento de escolher a área de voluntariado. Certas caraterísticas individuais podem não ser adequadas a certos tipos de voluntariado, em particular quando já existe sofrimento psicológico.
  • O envolvimento emocional prolongado e intenso pode levar a exaustão emocional (uma das componentes do burnout). Se já realizas voluntariado e achas que pode estar a acontecer-te isso, verifica se existe algum tipo de apoio por parte da organização. No entanto, mesmo que as organizações ofereçam essa rede de suporte, o que não é comum em Portugal, este pode não ser suficiente. Não deixes de procurar opções de ajuda; só podes cuidar dos outros na mesma proporção que cuides de ti.

O voluntariado não é terapia, mas é terapêutico.

Embora o trabalho pago também possa contribuir para alguns dos benefícios mencionados neste artigo, as vantagens do voluntariado são  diferentes devido à componente de altruísmo. Um estudo conduzido no Reino Unido, com dados de cerca de 70000 participantes, constatou que mesmo pessoas que só fazem voluntariado uma vez por mês demonstram níveis de bem estar mental superiores aos que o fazem esporadicamente ou não o fazem de todo. Ainda assim, Portugal tem uma das taxas de voluntariado mais baixas da Europa; segundo dados de 2023, ocupava no 26º lugar numa lista de 28 países. De que estás à espera para procurar uma comunidade a que possas chamar tua?

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